Esse é o Título da 29 Bienal de São Paulo que acontece entre  25 de Setembro e 12 de Dezembro.

 Baseado num verso  do poeta Jorge de Lima Há sempre um copo de mar para um homem navegar“, sintetiza a idéia de que a utopia da arte está contida nela mesma, o “copo de mar” de cada artista. E deste infinito particular cada um busca modificar o mundo. Por isso a conexão da arte com a política, também tema e ponto focal da Bienal.

Invencção de Orfeu – Jorge de Lima
II

A ilha ninguém achou
porque todos a sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
Uma clara geografia.

 

Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim

 

Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.

 

Nem achada e nem não vista
nem descrita e nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

 

Chegados nunca chegamos
eu e a ilha movediça.
Móvel terra, céu incerto,
mundo jamais descoberto.

 

Indícios de canibais,
sinais do céu e sargaços,
aqui um mundo escondido
geme num búzio perdido.

 

Rosa de ventos na testa,
maré rasa, aljôfre, pérolas,
domingos de pascoelas.
E esse veleiro sem velas!

 

Afinal: ilha de praias.
Quereis outros achamentos
além dessas ventanias
tão tristes, tão alegrias?

 

O Vídeo do Conceito Curatorial você vê aqui.

Entre os artistas brasileiros selecionados, veja a obra de  Amélia Toledo cujo trabalho aprecio imensamente.

Mãos dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Caricaturas  de Drummond


Por falar em criatividade, inventividade e neste jeito transverso e tão poético de ver a vida, vale conferir a  “desbiografia de Manoel de Barros”.

Um documentário delicioso, delicado e  inspirador .

 

  

“O olho vê,

a lembrança revê

e a imaginação transvê.  

É preciso transver o mundo.”  

Ouça Poemas do Manoel

 
 

 

 

Verão

Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a Avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas,
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro ainda em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
E essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração – resiste.

F.Gullar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na peça, Fagundes é um homem que acaba de perder a amada e passa a refletir sobre sua vida. Um espetáculo passional e provocador sobre a natureza da vida e da morte e o que a sociedade aceita em nome do amor.

RESTOS, tem uma virada surpreendente nos últimos minutos, que desestabiliza toda sua visão sobre o que foi dito antes. A tal ponto que desejamos dar replay e rever a peça sobre esta nova ótica.  Como isso é impossível, o que fica é nossa capacidade de recorrermos a memória imediata e nos reposicionarmos diante de tal revelação.  É uma brincadeira, mas ao mesmo tempo uma pena que cada palavra dita antes, não tenha podido ser “ouvida”  e sentida sob essa nova realidade. E é exatamente aí onde o texto alcança o desejado: Livres de tal revelação, os afetos que encontram eco na platéia remetem aos “nobres” sentimentos de perda e da vida junto a um grande amor;  que, não encontrariam eco caso o segredo tivesse sido revelado a priori. Depois disso o reconhecimento de tais afetos fica comprometido e lhe faz refletir …

Num cenário negro, um jato fino e lento de areia branca jorra sobre uma cadeira numa metáfora sobre a passagem do tempo. O cenário é elegante, poético e em nenhum momento ilustrativo, condizente com uma peça que só se revela nos últimos minutos. 

O texto é provocador, lhe faz pensar por mais tempo do que de costume.

Vale muito a pena assistir.

PS:  Making Of Peça Restos sobre cenografia, iluminação, texto, … no YouTube

Ficha Técnica:
Texto: Neil LaBute
Elenco: Antonio Fagundes
Tradução: Clarisse Abujamra
Direção: Marcio Aurelio
Cenário: André Cortez
Figurinos: Ricardo Almeida
Assistente de direção: Lígia Pereira
Assistente de produção: Bruno Fagundes
Direção de produção: Marga Jacoby

Foto: Divulgação / João Caldas

LOCAL: TEATRO DOS QUATRO – SHOPPING DA GÁVEA

Um pouco de poesia para aplacar esses tristes eventos no início do ano.

Dois e dois: quatro

 

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

 

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

 

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

                                                                  Ferreira Gullar.